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ESCRAVIDÃO, CULPA DOS PRÓPRIOS AFRICANOS?




Ao dizer no Roda Vida que a escravidão fora realizada pelos próprios africanos, Bolsonaro atraiu para si o ódio de inúmeras pessoas que alegaram ser essa uma afirmação terrível e racista, afinal, como seriam os próprios negros os culpados por essa mazela, contra si mesmos?

Dessa forma resolvi trazer um artigo, que escrevi há algum tempo para uma revista jurídica, tratando sobre o assunto. Transcrevo abaixo o trecho que trata da parte histórica da escravidão moderna e suas raízes. Fiz algumas adaptações no texto afim de melhor se encaixar neste formato.


HISTÓRICO


A escravidão foi praticada por muitos povos, desde a antiguidade clássica - seja pelos romanos, gregos ou egípcios, porém no ocidente, com o advento do cristianismo e a sua expansão, essa prática foi sendo abandonada – só voltando a aparecer após o iluminismo com a queda da influência da Igreja. Enquanto isso, no mundo árabe essa prática continuava a crescer com o islã, isso, pois a sharia regula a prática da escravização.

As linhas a seguir não se tratam de uma visão apaixonada da história, mas sim da história tal como é, afirmada como tal por grandes e renomados historiadores.


O ISLÃ


O Islã começou escravizando o branco europeu, pois o corão – como regra – só permite a escravização dos infiéis, visto que a Europa era um continente cristão e com eles se envolveram em várias Jihad (guerra religiosa), dessas disputas os perdedores eram transformados em escravos, conforme definia o próprio corão determina. Ainda sobre o homem branco escravizado é interessante ressaltar que a etimologia da palavra "escravo" vem de "eslavo", pois esses já eram escravizados a muito tempo.

Posteriormente, o ocidente começou a se defender dos ataques e com isso dificultou a conquista de escravos para o mundo árabe. Em vista desse problema os árabes partiram para a África - embora boa parte dos negros fossem muçulmanos, esta contradição foi rapidamente contornada dada as diferenças religiosas entre as várias divisões do Islamismo.

É importante ressaltar aqui que no mundo árabe o racismo era muito maior e mais antigo que no ocidente, pois lá a inferioridade do homem negro já tinha sido imobilizada no tempo e de forma quase irreversível. Isso pode ser provado através das palavras de alguns de seus mais destacados intelectuais.

Ibn Khaldun, historiador tunisino (1332 – 1406), disse que o homem negro não pode ser tratado como ser humano:


"Nas regiões mais ao sul só encontramos homens mais próximos dos animais que de um ser inteligente. Eles vivem em lugares selvagens e grutas, comem ervas e grãos crus e, às vezes, comem-se uns aos outros. Não podemos considera-los seres humanos (CARVALHO, 2009)."


Al-Abshihi (1388 - 1446) disse o seguinte:


"Que pode haver de mais vil, de mais ruim do que os escravos negros? Quanto aos mulatos, seja bom com eles todos os dias de sua vida e de todas as maneiras possíveis, e eles não lhe terão a menos gratidão: será como se você nada tivesse feito por eles. Quanto melhor você os tratar, mais eles se mostrarão insolentes; mas, se você os maltratar, eles te mostrarão humildade e submissão (CARVALHO, 2009)."

As crianças eram a “mercadoria” mais procurada entre os negros, visto sua facilidade de reintegração em um novo ambiente. Depois de capturadas, uma parte destas crianças passava por um processo de castração, sendo que nesse processo morriam cerca de 78% das crianças. Essa prática da castração de crianças é um diferencial árabe, não existia essa pratica no ocidente, por exemplo.

O movimento abolicionista surgiu no ocidente e dali se expandiu para o resto do mundo. E o racismo, tal como é denunciado em toda parte, só surgiu na Europa a partir do século XVIII, tal como descreve Olavo de Carvalho em um de seus artigos:


"Em contrapartida, teorias que afirmavam a inferioridade racial dos negros não se disseminaram na Europa culta senão a partir do século XVIII [...]. Ou seja: Os Europeus de classe letrada tornaram-se racistas quase ao mesmo tempo em que o tráfico declinava e em que eclodiam os movimentos abolicionistas, dos quais não há equivalente no mundo árabe, de vez que a escravidão é permitida pela religião islâmica e ninguém ousaria bater de frente num mandamento corânico (CARVALHO, 2009)."


A escravidão no mundo muçulmano, como um todo, durou até o século XX, sendo que esta foi abolida em parte por influência ocidental e em outra pelo fato de que não se envolvem mais em Jihad.


O OCIDENTE


Na entrada da idade média, com a queda do império Romano a escravidão ocidental foi gradualmente sendo abolida, isso se deve ao fato do advento do cristianismo e sua expansão. A cosmovisão medieval, dignificava toda a vida humana, foi nesse período que a mulher passou a ascender socialmente - ao contrário do que alguns dizem -, e foi também nesse período que a escravidão foi, à medida que os povos iam se convertendo, desaparecendo.

A Igreja estendeu os sacramentos aos escravos e em seguida trabalhou arduamente para impor a proibição da escravidão. No século VI, por exemplo, havia uma lei, por influência da igreja, que afirmava que nenhum escravo poderia ser preso caso estivesse em um Altar Católico, caso o fizesse o seu dono deveria pagar uma multa altíssima. A Igreja insistia em pregar àquelas sociedades europeias o quão ultrajante era aos homens a prática da escravidão, visto que pela fé em Jesus Cristo somos todos filhos de Deus.

Entre os cristãos Católicos costuma-se dizer que a idade média foi a primavera da fé, e esta descrição explicita bem a forma pela qual a escravidão foi gradualmente sendo abolida da civilização ocidental, pois a Europa nesse período vivia verdadeiramente a fé cristã.

A abolição da escravidão se deu de forma gradual e orgânica. Com as invasões barbaras, nos séculos IV e V, os proprietários de terras, que possuíam algum recurso, começaram a construir fortificações para se proteger dos bárbaros, nesse sentido, muitos homens que não tinham condições para se defender dessas hordas pediam auxílio e refúgio nas fortificações daqueles proprietários, e com isso, os proprietários faziam um contrato com esses homens para que nos tempos de paz cultivassem a terra e nos tempos de guerra o ajudassem na luta contra as ameaças. Todo esse esquema funcionava de forma natural, visto que era fruto das circunstâncias.

Os servos da gleba, como eram chamados, eram a gradual extirpação da escravidão na Europa, embora o servo ainda não fosse completamente livre ele já possuía direitos e não mais era tratado como mercadoria, como outrora eram os escravos, ele era Homem. Esse regime era um estado intermediário entre a escravidão e a liberdade, como dito acima, fruto das circunstâncias.


ESCRAVIDÃO MODERNA


Com relação ao tráfico negreiro, os Europeus só chegaram à África por volta da metade do século XV, ou seja, séculos depois dos árabes. Sobre isto escreveu o renomado historiador Fernand Braudel (1902 – 1985):


"O tráfico negreiro não foi uma invenção diabólica da Europa. Foi o islã, desde muito cedo em contato com a África Negra através dos países situados entre Níger e Darfur e de seus centros mercantis da África Oriental, o primeiro a praticar em grande escala o tráfico negreiro (...). O comércio de homens foi um fato geral e conhecido de todas as humanidades primitivas. O Islã, civilização escravista por excelência, não inventou, tampouco, nem a escravidão nem o comércio de escravos (BRAUDEL, 1989: 138)."


Dessa forma, não foram os portugueses que, adentrando o continente africano, capturava os negros e escravizava-os. Os portugueses se limitavam a comprar os escravos - conduta igualmente má - que os próprios povos africanos escravizavam. Ou seja, os europeus comprando ou não os escravos, eles continuariam sendo escravos, sem liberdade, afinal o próprio continente africano utilizava-se de mão de obra escrava.


A ÁFRICA


Muito antes da chegada dos árabes às terras africanas já era comum a prática da escravidão nessas terras pelos impérios africanos. Com o advento do comércio de escravos para o ocidente as elites africanas viram nisso um vantajoso negócio, afinal sempre tinham à sua mão muitos escravos.

Sobre isso Olavo de Carvalho destacou o seguinte:


"A escravidão era norma geral na África muito antes da chegada deles (os árabes), e hoje sabe-se que a maior parte dos escravos capturados eram vendidos no mercado interno, só uma parcela menor sendo levada ao exterior. Quando os apologistas da civilização africana enaltecem os grandes reinos negros de outrora, geralmente se omitem de mencionar que esses Estados (especialmente Benin, Dahomey, Ashanti e Oyo) deveram sua prosperidade ao tráfico de escravos, do qual sua economia dependia por completo. Especialmente o reino de Oyo (CARVALHO, 2009)."


Dessa forma fica claro que não foi culpa dos portugueses, ou dos europeus em geral, a existência da escravidão dos negros. Ela já existia por si, entre os próprios africanos. Independentemente dos portugueses terem ido lá buscar escravos ou não os negros continuariam sendo escravizados por pessoas de seu próprio continente e seriam levados para outro lugar, que não o ocidente.

É preciso dizer, afinal leitores com má fé existem aos milhares, que não se trata aqui de eximir a culpa dos portugueses na escravidão. O simples fato de terem compactuado com tal prática já é moralmente abominável. O texto se limita a provar que a escravidão não foi criação do “homem branco” - afinal a muito tempo o homem branco é que era a vítima, com disse acima.

Enfim, quem escravizava os negros e os entregavam aos “homens brancos” eram os próprios negros, os portugueses realmente não entravam África adentro caçando negros. A afirmação corriqueira de que o Bolsonaro e seus “seguidores” precisam “estudar história” não passa de um chavão, retórica sofista, repetida por pessoas que uma vez ao ano leem algum livro ao estilo “Harry Potter” e, quando muito, fazem algum cursinho pra ascender à estabilidade de algum cargo público.

Camilo First

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